domingo, 31 de outubro de 2010

Falas de civilização...


Falas de civilização, e de não dever ser, 
Ou de não dever ser assim. 
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira, 
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos. 
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor. 
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo. 
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo. 
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade! 
                                      
Alberto Caeiro

Dia das Bruxas


Porque 31 de Outubro?



Existem várias teorias para a data ser comemorada como tal. Alguns dizem que este é um dos dias de descanso das bruxas no calendário celta, os quatro dias de “meio trimestre”. Entre outros significados, esse seria o tempo da morte e ressurreição da terra. Já para os druidas, seria exatamente nessa noite que os espíritos dos mortos retornavam e precisariam de agrados para não atormentar os vivos. Outros dizem que nessa data os espíritos dos mortos viriam se apossar dos corpos dos vivos e estes, por sua vez, usavam abóboras, caveiras e ossos para assustá-los. Ao se tornar uma festa pagã, a Igreja Católica proibiu a comemoração na Idade Média e passou a denominá-la Dia das Bruxas.

Fonte: Puts Grilo.com


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Melhor Vida é a Vida que Dura sem Medir-se



Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.

Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa conosco,
Que passamos com ela.

Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.

Ricardo Reis, in "Odes" Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Steven Kenny


Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

Hilda Hilst

O Rio

Imagem: Google


Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Da Observação

Aka Lousie

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Mario Quintana - Espelho Mágico

Aka Lousie


Dos Mundos

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

Mario Quintana - Espelho Mágico

quinta-feira, 14 de outubro de 2010


Fofocas são apenas palavras pequenas vindas de mentes pequenas.
Elvis Presley


Não ouse roubar minha solidão,se não fores capaz de me fazer real companhia.

Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 13 de outubro de 2010


A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito de rir sem vontade, de falar sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade... O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul, fica azul, numa vermelha vermelho. Um dia se olha no espelho, de que cor eu sou? Tarde demais para sair pela porta afora.
( Eu era mudo e só - Livro: Antes do Baile Verde)

Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, 11 de outubro de 2010


As pessoas estão levando tudo tão a sério
que isso se torna um fardo para elas.
Aprenda a RIR mais.
A risada é tão sagrada quanto a prece.

Osho
Steven Kenny


"No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem, e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo."

Milan Kundera

domingo, 10 de outubro de 2010

Cinema: Uma Lição de Vida (2001) Drama

Nesse filme, o que mais me impressionou foi a atuação de Emma Thompson, ela dá um show,  é relevante notar que o diretor ( Mike Nichols) faz com que o espectador sinta em si mesmo os dramas da vida da paciente. As tomadas em primeiro plano, onde a atriz  fala diretamente para a câmera remetem, invariavelmente, à idéia de que alguém está falando conosco e o efeito produzido é impactante.  Assim, os temas abordados tornam-se  exemplares para nós, pois a impressão produzida é que , a história contada, não é de alguém distante; é uma tragédia nossa também.


Vivian Bearing (Emma Thompson)é uma professora catedrática de poesia inglesa do século 17. Exigente e precisa em seu trabalho, ela só se deixa abater quando recebe o diagnóstico de câncer no ovário em estágio avançado. Concordando em participar de uma experiência, com uma nova droga, Vivian terá que conviver com terríveis efeitos colaterais. Após anos preocupando-se com os versos metafísicos, agora sua especialidade será outra, a dor e o sofrimento físico, passam a fazer parte de sua vida. Para Vivian, este processo, é devastador e superá-lo é seu novo desafio.


sábado, 9 de outubro de 2010

Fabian Perez


Eu Que Não Amo Você


Composição: Humberto Gessinger

Eu que não fumo, queria um cigarro
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais
Nesse último mês.

Senti saudade, vontade de voltar
Fazer a coisa certa
Aqui é o meu lugar
Mas sabe como é difícil encontrar
A palavra certa,
A hora certa de voltar,
A porta aberta,
A hora certa de chegar...

Eu que não fumo, queria um cigarro
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais
Nesse último mês.
Eu que não bebo, pedi um conhaque
Pra enfrentar o inverno
Que entra pela porta
Que você deixou aberta ao sair.

O certo é que eu dancei sem querer dançar
E agora já nem sei qual é o meu lugar
Dia e noite sem parar, corro o risco de encontrar
A palavra certa,
A hora certa de voltar,
A porta aberta,
A hora certa de chegar...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Meu País

imagem: google
O Meu País


Composição: Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o brasil em mil brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Steven Kenny


"Ah! Desgraçados!

Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: "a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando".
Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguem se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça."

Bertolt Brecht

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Steven Kenny

Somos donos de nossos atos, mas
não donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que
sentimos;
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos sao pássaros engaiolados,
sentimentos são pássaros em vôo.

Mário Quintana

sábado, 2 de outubro de 2010

Arthur Braginsky


“Digo: o real não está na saída nem na chegada:
ele se dispõe para a gente é no meio da travessia
O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
 
Guimarães Rosa

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"...Afinal, digam-me os senhores com suas luzes e sua
experiência, onde está a verdade, a completa verdade?
Está a verdade naquilo que sucede todos os dias, nos
quotidianos acontecimentos, na mesquinhez e chatice da
vida da imensa maioria dos homens ou reside a verdade
no sonho que nos é dado sonhar para fugir de nossa triste
condição? Na pequena realidade de cada um ou no imenso
sonho humano?... "

Jorge Amado

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

'PÁTRIA MADRASTA VIL'

Foto: Bruna Prado


 Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez.... Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não
 pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
 Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância
 de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
 O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente
 sistematizada - de contradições.
 Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é
 gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está
 mais para madrasta vil.
 A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar
 na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
 E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me
 restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria
 querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo
 na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade.
 Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada
 pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha
 voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação
 gerar liberdade e esta, por fim, igualdade.. Uma segue a outra... Sem nenhuma
 contradição!
 É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem
 esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças
 que transformem!
 A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão
 uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O
 povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não
 aprendeu o que é ser cidadão.
 Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa
 participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não
 modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas
 na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo
 para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso?
 Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra
 fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a
 pobreza e desigualdade no Brasil.
 Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não
 afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
 Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um
 posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos.
 Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se:
 quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser
 tratado como cidadão ou excluído? Como gente... Ou como bicho?


 Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos, estudante que termina
 faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes
 universitários.
 Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações
 Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre
 'Como vencer a pobreza e a desigualdade'

 A redação de Clarice intitulada `Pátria Madrasta Vil´ foi incluída num livro,
 com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no
 site da Biblioteca Virtual da UNESCO.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

E estamos conversados

Bellor


Arnaldo Antunes / Paulo Tatit - 1996

Eu não acho mais graça nenhuma nesse ruído constante
que fazem as falas das pessoas falando, cochichando e reclamando, que eles querem mesmo é reclamar,
como uma risada na minha orelha, ou como uma abelha, ou qualquer outra coisa pentelha,
sobre as vidas alheias, ou como elas são feias,
ou como estão cheias de tanto esconderem segredos
que todo mundo já sabe, ou se não sabe desconfia.
Eu não vou mais ficar ouvindo distraido eles falarem deles e do que eles fariam se fosse com eles
e do que eles não fazem de jeito nenhum, como se interessasse a qualquer um.
Eles são: As pessoas. As pessoas todas, fora os mudos.
Se eles querem falar de mim, de nós, de nós dois,
falem longe da minha janela, por favor, se for para falar do meu amor.
Eu agora só escuto rádio, vitrola, gravador.
Campainha, telefone, secretária eletrônica eu não ouço nunca mais, pelo menos por enquanto.
Quem quiser papo comigo tem que calar a boca enquanto eu fecho o bico.
E estamos conversados.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cultura


O girino é o peixinho do sapo.
O silêncio é o começo do papo.
O bigode é a antena do gato.
O cavalo é o pasto do carrapato.
O cabrito é o cordeiro da cabra.
O pescoço é a barriga da cobra.
O leitão é um porquinho mais novo.
A galinha é um pouquinho do ovo.
O desejo é o começo do corpo.
Engordar é tarefa do porco.
A cegonha é a girafa do ganso.
O cachorro é um lobo mais manso.
O escuro é a metade da zebra.
As raízes são as veias da seiva.
O camelo é um cavalo sem sede.
Tartaruga por dentro é parede.
O potrinho é o bezerro da égua.
A batalha é o começo da trégua.
Papagaio é um dragão miniatura.
Bactéria num meio é cultura.

Arnaldo Antunes
O Globo: 26/07/2009